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Cem anos de solidão da América Latina

Cem anos de solidão, a magnus opus do colombiano Gabriel García Márquez, já era ansiosamente esperada pelos leitores mesmo antes de o autor terminar de escrevê-la. Gerald Martin, o principal biógrafo de Gabo (ou Gabito para a família e amigos) revela em seu livro que a escrita da saga da família Buendía foi tão permeada pelo clima de magia que acabou tornando-se também parte da mitologia da vida de García Márquez.

A começar por sua gênese: de acordo com Gabo ele teve a ideia germinal para o livro enquanto dirigia com a família para umas férias em Acapulco, no México (na época os García Márquez moravam na cidade do México por causa do trabalho do patriarca como roteirista), e toda a história de Macondo simplesmente surgiu em sua mente praticamente pronta. Foi como uma inspiração divina, quase como se as Musas da Antiga Grécia houvessem soprado no ouvido do escritor todas as peripécias de José Arcádio Buendía, Úrsula Iguarán, o Coronel Aureliano e etc. Outro tom mitológico atribuído ao processo de criação do livro se refere aos misteriosos primeiros capítulos que Gabo publicou inicialmente em jornais da Argentina e fizeram tanto sucesso que os leitores começaram, boca a boca, a promover o marketing da história. Outro toque da magnífica magia que cercava o livro aconteceu quando Gabo já estava tão completamente imerso no processo de escrita que abandonou o trabalho e parou de pagar até mesmo o aluguel: o que acabou se tornando mais uma de suas histórias favoritas para contar aos jornalistas. O que se sucedeu foi que, após três meses sem receber o pagamento, o locador telefonou e perguntou quando a família pretendia pagar os alugueis atrasados. Mercedes, a esposa de Gabo, atendeu a ligação e diz-se que virou para o marido e perguntou em quanto tempo ele terminaria o livro: “preciso de seis meses”, Gabo respondera. A esposa, então, respondeu ao locador que eles pagariam toda a dívida em sete meses. O mais surpreendente, ou milagroso, ou mágico, é que o homem concordou.

O fato é que Cem anos de solidão já possuía uma infinidade de leitores ansiosos quando, por fim, foi publicado em 1967. A tiragem inicial do livro em solo argentino passava das 50 mil cópias – esgotadas em poucos dias. O caso é que o livro tornou-se um best-seller em poucos meses e catapultou a nova mania mundial: o realismo mágico latino-americano. Gabo virou uma estrela pop, reconhecido em qualquer país que fosse e cercado por jornalistas que queriam ardentemente ouvir suas declarações políticas com fortes inclinações socialistas.

É difícil resenhar o conteúdo do livro. Em tese, Cem anos de solidão é sobre um povoado chamado Macondo e seus habitantes, em especial a família Buendía, cujo antepassado fora o fundador da cidade

e a história acompanha por um século todas as transformações sociais, econômicas, políticas e culturais que Macondo e as dezenas de personagens enfrentam. É um livro sobre famílias e seus conflitos, suas dores, suas virtudes e seus piores pecados. Mas por outro lado também é um livro fundador do ideal de América Latina vendido para o resto do mundo: uma terra mágica, misteriosa, quente e sensual.

Não é surpreendente, portanto, que Cem anos de solidão tenha sido um sucesso estrondoso na América Latina: esta também é uma história sobre cada latino-americano, sobre cada família latino- americana e sobre cada cidadezinha desta parte do continente. Macondo e seus mistérios, sua religiosidade, seus eventos mágicos é a epítome da alma latina. Em determinado ponto da história, após uma Companhia Bananeira instalar-se na cidade e modificar radicalmente a paisagem e os costumes dos moradores, o coronel Aureliano Buendía, filho da Úrsula Iguarán, a matriarca da família, solta uma de suas mais icônicas frases que poderiam muito bem resumir a história da América Latina: “Olhem a confusão em que nos metemos – costumava dizer então o Coronel Aureliano Buendía – só por termos convidado um americano para comer banana”.

Levando em consideração toda a história de conflitos políticos da América Latina, especialmente por conta da força do imperialismo norte-americano na região, não é de se admirar que em seu discurso após vencer o prêmio Nobel de Literatura García Márquez se referiu ao continente latino-americano como um lugar apartado do mundo – e, portanto, solitário. A solidão do título do livro diz respeito ao estado interno das personagens mas também a todos os interesses escusos que empurraram a América Latina para a borda do mundo e a condenaram a mais do que cem anos de solidão.

3 thoughts on “Cem anos de solidão da América Latina

  1. Simplesmente sensacional essa resenha, um dos maiores clássicos da literatura latino-americana precisa alcançar o máximo de leitores possíveis.

  2. Muito bom seu olhar sobre Cem anos… ver a magia de Macondo/ América Latina sem perder de vista nossa história de servilismo e exploração é o que entendo ser a síntese do romance

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